QUANDO PERDER TEMPO É SINÔNIMO DE PROBLEMA…

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… A LITERATURA ESTÁ DESCONHECENDO SEUS AUTORES!

Jacqueline aisenman

Crônica de maio de 2016

 

Há extensas pesquisas que nos mostram um dos problemas surgidos com a internet: a atribuição de autoria de certos textos a autores que não os escreveram.

Não é raro lermos uns poemas, pensamentos ou pequenas crônicas de Mario Quintana, Clarice Lispector, Luis Fernando Veríssimo, Martha Medeiros entre outros e ter vontade de repassar o conteúdo a amigos porque o texto é bom e mereceria que fosse lido por muitos! Então compartilhamos, seja em rede social, seja por e-mail, para depois descobrir, tristemente, que os textos não pertenciam aos autores citados.

Este tipo de acontecimento é uma verdadeira febre que tomou conta da virtualidade. Ninguém mais checa para saber a veracidade da autoria. Ou, no máximo, diríamos que poucos são o que verificam. A pressa em compartilhar é tanta, que se tem a impressão de ver o tempo se acabando e que, se não for enviado imediatamente, o texto perderá o valor. É nítida a impressão do tempo veloz devorando as informações.

Na verdade, o texto perde o valor. Com certeza. Mas perde, quando enviado a outros com a autoria indevida, porque causa danos ao autor que recebe a atribuição sem o desejar ou mesmo sem saber do ocorrido, mas também e, principalmente, ao verdadeiro autor, que acaba por desaparecer no mar de compartilhamentos errôneos.

Nesta bagunça, restam poucas fontes confiáveis e isto é algo não só absurdo, mas estarrecedor. Mais e mais sites pela internet estão publicando os textos sem consultar a originalidade. De onde, muitas vezes, também acabamos por encontrar o plágio.

Mas voltemos à verificação de autoria. Imagine você que escreve de repente ver um texto seu passando na sua frente aí na tela do computador, tendo como autor (a) uma pessoa desconhecida ou um autor famoso. O que você faria? De que forma se sentiria? Não teria vontade de sair gritando o contrassenso do ocorrido? Não teria vontade de chamar a atenção de quem publicou ou compartilhou?

Pois é… Ninguém que preza realmente a literatura se sentirá à vontade em tal situação. Então, creio que corrigir estas barbaridades é urgente e deve começar por nós, pessoas que escrevem e vivem neste mundo literário já tão problemático. Errar é humano e nunca estaremos livres de um compartilhamento deste tipo. Somos também vítimas de supostas fontes confiáveis.

Mas devemos nos esforçar para checar a autoria sempre que possível. Verificar em diversas fontes. E isto não é perda de tempo, bem ao contrário; é utilizar bem o tempo, contribuindo para uma melhor qualidade de conteúdo neste mundo virtual que frequentamos. Desta forma, estaremos ajudando não somente outros escritores, mas também a nós mesmos, pois conhecimento nunca é demais.

Procure, leia, compare. Olhe nos livros que você tem em casa, em bibliotecas, investigue em bons sites que possuam referência em termos de literatura. Se tiver a oportunidade, pergunte a professores e pesquisadores. Vá em busca da informação que será muito importante.

Tudo isto pode parecer demais, para uma ação tão simples como compartilhar uma postagem ou enviar um e-mail, mas creia, não é. Este esforço para não publicar/repassar textos erroneamente atribuídos, será recompensado um dia quando passarmos a ver que mais gente se importa com isto que os autores são reconhecidos devidamente por seus textos.

Não deixemos que esta confusão se perpetue através da agonia geral das pessoas em não perder tempo e de querer ser sempre os primeiros a “mostrar” algo para os demais. Ser o primeiro a compartilhar um texto errado só fará da gente motivo de comentários nada elogiosos.

Sejamos claros, lúcidos, pertinentes, corretos. Sejamos pacientes. Sejamos leitores atentos e respeitosos das obras alheias. Sejamos escritores que leem e dignificam seus colegas, não deixando que seus trabalhos tenham a autoria falsamente concedida a outros, mesmo que tal fato não tenha sido proposital.

Com nossa preocupação e com nosso afinco, a literatura há de parar de tropeçar por aí e irá encontrar novamente a boa direção, voltando a reconhecer os seus autores. E eles serão gratos mesmo em silêncio.

 

 

Imagem by Shutterstock

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