DISTRIBUIÇÃO DE LIVROS: VENDER, DOAR (E DAR), TROCAR

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O problema do estoque sem fim

 

Escrevemos livros. E os editamos quando possível. Da escrita à edição são grandes e largos passos dados por toda a pessoa que escreve, designe-se ela mesma escritora ou não. Passos que são dados com muito sacrifício na grande maioria das vezes, incluindo aí as dificuldades de encontrar, já de início, quem aceite editar. Não encontrando, parte o indivíduo com seu livro impresso debaixo do braço ou gravado em um pen drive guardado no bolso ou na bolsa.
A fase de edição, se for realizada por uma boa e correta editora, não será problema para o autor. Ele acompanhará o decorrer da história, mas apenas isto. Será uma gravidez sem riscos caminhando para um parto normal e no tempo certo. Já não se pode dizer o mesmo no caso da edição ser feita por uma pseudo editora (gráficas, alguns selos editoriais) porque aí o autor, como numa auto edição, terá que cuidar de todos os detalhes (da diagramação à revisão), correndo o risco de passar por uma cesariana abrupta ou um parto com fórceps e outros instrumentos agressivos para sua sensibilidade.
Aí o livro vai para impressão. Não importam mais os percalços, a impressão do livro dá a sensação boa e vitoriosa de que, finalmente, as coisas estão no bom caminho. Deixando de lado desde agora o escritor editado por grandes editoras, vamos focar nos que se auto editam ou editam por intermédio de gráficas e afins.
O livro sendo impresso, inicia-se o período de preparação para o momento de autógrafos que poderá ser uma livraria (paga ou a convite, dependendo da oportunidade), um clube, um restaurante, uma feira literária ou mesmo uma casa de amigos. A tarde (noite de autógrafos) é o instante mais esperado, já que finalmente o livro será mostrado ao público, sua capa estampada em convites e seu conteúdo entregue aos leitores. O lançamento de um livro equivale ao nascimento de um filho. O filho esperado sofridamente por meses e que vamos, enfim!, apresentar à sociedade.
Mas momento é momento, o lançamento durará algumas horas, exemplares serão vendidos, autógrafos serão distribuídos junto a sorrisos. E a festa terminará. Ali mesmo, no fim do evento, o autor começará a enxergar seu futuro problema: dificilmente, e reforço, dificilmente, todos os exemplares terão sido vendidos durante a sessão de autógrafos. E lá volta o autor para casa com algumas caixas de livros. Se ele comprou apenas um número x de exemplares, não terá muito o que administrar, pois a cada lançamento poderá “encomendar” a impressão de mais alguns exemplares para a venda. Mas, se fez o que normalmente muitos fazem, ou seja, pagou a editora para a confecção de, vamos supor, quinhentos exemplares, então terá que lidar com um problema que não é dos menores: a divulgação e distribuição.
Divulgar a si mesmo e ao seu livro não é tarefa simples. E distribuir os livros, pior ainda. Agora pense num autor que editou não um título, mas, ao longo dos anos, editou vários títulos. E a cada edição, somam-se a quantidade de livros que deve ser divulgada e distribuída.
Colocar livros em livrarias pode ser dispendioso. Em geral, estes estabelecimentos cobram para colocar os livros à venda. Cobram por período, por quantidade de exemplares e até mesmo por localização (em prateleiras mais na frente, mais atrás, na vitrine…). Se o autor não tiver ligação com pessoas que possuem ou trabalham em livrarias, poderá não conseguir por seus livros à venda nem mesmo pagando para isto. Acontece com muita frequência.
Resta ao escritor, no caso de não conseguir vender seus livros em livrarias, tentar outros gêneros de estabelecimento: supermercados, lojas de conhecidos e etc., são comumente escolhidos como pontos de venda. Feiras literárias também são uma boa escolha, mesmo que, bem se sabe, nas feiras não se vende o tanto que se imagina, elas são mais úteis para a divulgação do que para a distribuição. E, todas as feiras são pagas, pois os estandes onde o autor poderá expor seus títulos foram comprados por alguém para lá estar presente e que alugará os horários. No caso do escritor desejar ir sozinho a uma feira literária, também pagará, pois dificilmente encontrará espaço gratuito em eventos que possam lhe proporcionar um retorno.
E além disto, o que fazer mais para não acabar tendo em casa um estoque fenomenal de livros ocupando espaço físico e deixando no escritor a mágoa não confessada de ter seus livros “empatados”?
Bem, gostaria de poder responder dizendo que há soluções boas, simples e garantidas. Mas, infelizmente, seria uma inverdade. Distribuir livros é uma missão. E não é uma missão daquelas realizáveis de um dia para outro.
O escritor pode visitar escolas e levar exemplares de seus livros para doação às bibliotecas das mesmas e/ou para os alunos (dependendo sempre da idade dos mesmos e do conteúdo do livro). Poderá doar livros para bibliotecas e associações que são criadas em todo o país por pessoas abnegadas e que ficariam profundamente agradecidas pelo gesto. Poderá doar livros a comunidades e escolas carentes. Isto seria um gesto e tanto! Poderá enviar pelos correios exemplares para jornalistas, críticos literários, outros escritores, revistas e cadernos literários, consultores de rádio, televisão e jornais. Tudo isto numa tentativa de chamar a atenção e, desta forma, talvez chegar a uma distribuição maior dos livros. Mas nada é garantido, tudo é e sempre será uma tentativa.
Trocar livros com outros escritores é enriquecedor. Mas mesmo trocando bastante o escritor não escoará seu estoque. Apenas terá mais leitura. O que não é má ideia!
Enfim, o problema da distribuição de livros editados é mesmo um problema. E nos traz o dilema do que fazer: continuar editando novos livros ou primeiramente conseguir distribuir os que já foram editados?
Não, não estou me dirigindo a você que tem uma editora que lhe garante a edição, divulgação, distribuição e venda. Se você leu desde o começo, sabe que estou me dirigindo a escritores como eu, que não tem nada disto. E que a cada livro editado, voltam ao mesmo esquema: e agora?
E não, não estou dizendo a você que se auto edita (como eu) ou que edita com uma editora pequena, que você deve parar de editar seus livros. Claro que não! Cada um é cada um e opiniões divergem. Apenas trago aqui a reflexão, que é minha grande reflexão ultimamente, sobre o fato de valer a pena ou não continuar editando livro após livro sem saber o que fazer deles depois do dia do lançamento.
Convenhamos, se for editar apenas para somar no currículo literário, qual a razão da existência do livro, afinal? Eu me pergunto isto diariamente e estou começando a me fazer cada vez mais perguntas a partir desta. Perguntas que envolvem vocação, profissão, ego, vontade, capacidade e, mais do que tudo, realidade pessoal e social.
Porque a distribuição dos livros é um fator que não se pode negligenciar. Principalmente quando mais do que livros nas mãos de leitores, temos livros guardados em caixas e caixas guardadas em armários, sótãos, porões e outros.
E concluindo minha reflexão pessoal, penso que escrever é um verdadeiro ato de amor. Mas todos sabemos que nem todo ato de amor precisa terminar em filho. Por isto, pelo menos de minha parte, vou começar a repensar seriamente a questão da edição de novos livros a partir da pergunta: “Como farei para distribuir? Encontrando uma resposta que valha a pena, verei o restante.
Enquanto isto, vou escrevendo que escrever não ocupa espaço, agiliza a mente e abranda o coração!

 

Imagem by Geralt

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