ASSOCIAÇÕES LITERÁRIAS E ACADEMIAS DE LETRAS:

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A realidade que ninguém gosta de comentar

 

Ando pensando. Para variar, estou sempre pensando. Mas dei para fazer certas reflexões sobre o porquê de uns anos para cá as associações literárias e academias de letras desvinculadas de órgãos oficiais e “sem eira e nem beira” estarem proliferando de maneira vertiginosa.

São tantas, mas tantas, que dá para ficar tonto apenas de tentar enumerar. Dê uma volta pelo Google depois de digitar “academia de letras” ou “associação literária” e você levará, como eu levei, um susto imenso! São centenas, centenas!, das mais variadas naturezas e com os mais diversos objetivos. Existem em todos os cantos do Brasil e, em muitos casos, são várias na mesma localidade, mesmo se esta última for pequena e tenha poucos habitantes.

Os que conhecem o significado (real) de uma associação literária e também de uma academia de letras, sabem bem a diferença existente entre as mesmas, ainda que vários de seus objetivos coincidam e suas ações possam se encontrar.

Sejamos rápidos ao lembrar que as associações literárias têm geralmente como propósito reunir escritores com o mesmo objetivo, ou seja, de difundir seus trabalhos literários e a literatura em geral através de todos os meios possíveis.  Uma academia de letras é, de acordo com nossa já tão famosa Wikipédia: “… uma instituição de cunho literário e linguístico, que reúne uma quantidade limitada de membros efetivos, numa tradição iniciada no Século XVII com a Academia francesa.” /

A Academia Brasileira de Letras se define como segue: “A Academia Brasileira de Letras (ABL) é uma instituição cultural inaugurada em 20 de julho de 1897 e sediada no Rio de Janeiro, cujo objetivo é o cultivo da língua e da literatura nacionais.”

Das muitas associações literárias que conheço, se for bem sincera, pouquíssimas são as que cumprem seus propósitos. Limitam-se a reuniões esporádicas, publicação eventual de antologias e outras coisas assim. Sinto os escritores meio órfãos, mas ainda assim, fazem o possível para estar presentes em dezenas de associações. O porquê me foge, já que não há um retorno visível. Mas, como disse anteriormente, não falo de todas.

Quanto às academias, estas são ainda mais duvidosas. Academias de Letras devem, por obviedade, seguir a definição de uma academia nacional, de onde nascem os grandes diálogos sobre a língua falada no país onde se situa a academia e onde os membros são escritores renomados no país ou no estado, ou ainda no município onde se encontram. Destes diálogos e debates seguirão então obras e realizações que contribuam efetivamente para o desenvolvimento do idioma, servindo de espelho e exemplo para todo escritor ou aspirante a escritor, além de alunos de todas as escolas.

Vejo nascer praticamente de forma diária as academias de letras (que hoje em dia são mistas, combinando a arte em geral). Recebo vários convites num mesmo mês e sempre me faço a mesma pergunta: Mais uma? E sempre dou a mesma resposta: Não, obrigada.

É evidente que se houvesse união entre escritores não seria necessária a criação de tantos organismos diferentes se promovendo ao prometer as mesmas coisas que todos prometem: divulgar o escritor e suas obras e, de quebra, divulgar a língua do país dentro e fora dele.

Na minha opinião, cada município deveria ter apenas uma academia de letras, com formato oficial, reunindo como acadêmicos os escritores do local. Cada município sabendo de si, caberia à academia de cada um ter noção do número de membros que poderia efetivar visando os mesmos objetivos que as academias estaduais e a nacional. Nos estados isto já é feito. Todos possuem academias de letras, algumas mais ativas do que outras, levam o nome de seus escritores membros ao público que anseia por conhecê-los.

Embora a elitização tenha tomado conta das academias de letras ditas oficiais e a ela sejam ligados tão somente termos como “erudição” e “intelectualidade”, seria importante que houvesse uma movimentação por parte dos escritores, unidos e convencidos do ideal, para que tal fenômeno cessasse e que fossem abertas as portas das academias a todos os escritores que se dedicam de corpo e alma à literatura.

Mas a proliferação das academias de letras (academia significando uma sociedade literária) criadas à revelia do seu significado mais puro, mostra o quanto as pessoas estão desesperadas por quantidade e esqueceram a necessidade fundamental da qualidade. Poderia se dizer que existe atualmente um modismo entre escritores: listar um número incalculável de academias das quais são membros. Academias de diversos municípios, estados e, por incrível que possa parecer, países. Listam de forma orgulhosa, como se a quantidade fizesse a diferença e que neste acúmulo encontrassem respaldo para uma carreira literária e apoio concreto para a existência da mesma. O rol que os aponta membros é infindo, mas as atividades, estas, bem pelo contrário, em muitos casos é mesmo inexistente.

Academias realizam menos ações que contribuam culturalmente para a sociedade do que as associações literárias e isto é um fato. Uma parte substancial delas, para não se falar na maior parte mesmo, resume suas atividades a uns poucos eventos onde costumam ostentar o que seria o “fardão”, “a vestimenta com significado simbólico das academias de letras” ditas oficiais. Destas reuniões, os frutos mais conhecidos são fotos nas redes sociais e jornais locais e/ou dedicados.

O objetivo sucinto e permanente de cultivar a língua e a literatura nacional é praticamente esquecido, note-se a quantidade de membros que costumam, perdoem-me a sinceridade, até escrever de forma errada o próprio idioma sem sequer demonstrar preocupação ou suscitar a preocupação dos demais membros para que lhe venham em auxílio. Afinal, a união deveria fazer a força e a diferença.

Hoje em dia há dois critérios que são comuns às associações e academias onde a literatura é o motor: a veia financeira, que é explorada das mais diversas maneiras e envolve pessoas que se profissionalizam no ramo; e a obtenção de títulos, medalhas, diplomas e certificados que são, junto das “vestes oficiais”, os meios de exibição mais evidente e que mais agrega escritores. Nenhuma academia consegue membros sem oferecer tais sinais manifestos de um “luxo” (lixo?) literário completamente desnecessário.

Na verdade, deixou-se há muito tempo de ter uma preocupação normal que fosse com o idioma que aprendemos na infância com os livros e com o coração. Tudo hoje é dinheiro, vaidade e quantidade. Todos querem obter lucros. Todos querem aparecer no maior número de meios midiáticos possíveis, aí incluindo as redes sociais. Todos querem mostrar que já editaram “x” livros, já receberam “x” diplomas/certificados, já possuem “x” títulos. A edição de livros e o “cardápio” de títulos e diplomas é que rendem financeiramente e fazem girar o meio. E depois, a divulgação dos citados méritos (que significaria na realidade receber algo por real merecimento e sem pagamento por), conclui a sequência.

Sei que pareço amarga quando falo desta maneira. Tanto quanto parecem amargos e antipáticos os “nãos” que digo costumeiramente a tudo isto. Não tenho títulos, nunca quis tê-los porque não dou valor algum a eles. Tenho um prêmio literário apenas e do qual me orgulho por ter sido concedido por academia oficial e pelo qual não paguei.  Quanto a diplomas, prefiro não comentar, pois seria muito cruel o que eu teria a dizer. Certificados são normais, afinal, “certifica-se” alguém de alguma participação, de um prêmio ou outro. Mas diplomas…

Sou membro correspondente de umas poucas associações e/ou academias das quais nunca mais ouvi falar desde que me convidaram e aceitei fazer parte pensando, na época, que iria contribuir para algo. Aliás, estou enganada: há uma academia apenas (da qual sou membro correspondente) que me honra com mensagens, convites e comunicações do que faz acontecer. É a única. Das outras se já não saí, sairei em breve. De resto, ultimamente só respondo negativamente a estes tipos de convites.

Aprecio o ideal de certas pessoas, admiro a vontade de outras e até mesmo a coragem de algumas. Mas não gosto de ver a ambição desmedida que tomou conta do meio literário, onde hoje impera a era do “eu”, do “ego”, que é prioritário diante do “nós” de uma maneira vulgar, sem sutilidade e extremamente nociva. Onde é o egoísmo que, disfarçado de conjunto, promove a agregação de escritores em cada vez mais numerosas academias e associações literárias sem jamais objetivar o bem maior do idioma ou dos próprios membros.

Diga-se de passagem, estas numerosas entidades ainda costumam ser famosas pelos desentendimentos e pela forma ruim como falam umas das outras. Me pergunto o que faz um membro que participa de várias delas e percebe isto: qual sua posição quando uma associação ou academia fala mal, desabona e até mesmo desqualifica outra ou algum de seus membros?

Pensando nisto é que cada vez mais me afasto de tudo. Faço no conforto da minha casa a revista literária Varal do Brasil há sete anos e espalho a Literatura Portuguesa para quem desejar, gratuitamente e sem compromisso. É meu lazer, não minha obrigação.

Cheguei a desfazer a Associação Cultural Varal do Brasil por não acreditar mais que valha a pena estas batalhas sem rumo. E de fininho vou me retirando de onde posso ter entrado inadvertidamente e hoje me arrependa por não ver frutificar as ações que façam crescer a minha língua amada e que a divulguem em sua escrita correta.

E, principalmente, me afasto de todas as academias e associações que, sob as mais variadas desculpas, constituem um conjunto de escritores e outros que não honram a Língua Portuguesa com simplicidade, humildade e elegância. São, bem ao contrário, antros onde todos os interesses, por mais falsos que sejam e por mais hipocrisia guardem, recebem enaltecimento e são glorificados. Há uma expressão clara para estes, e é o mercenarismo cultural.

No caminho da Literatura, ando ao lado de poucos, mas destes poucos, sei o valor e reconheço o percurso realizado além de, sempre, guardar a amizade e admiração pessoal por todos eles.

 

One Comment

  1. Caríssima Jacqueline,
    Parabéns!
    Assino, subscrevo, endosso.
    Aqui, você falou e disse: “Na verdade, deixou-se há muito tempo de ter uma preocupação normal que fosse com o idioma que aprendemos na infância com os livros e com o coração. Tudo hoje é dinheiro, vaidade e quantidade. Todos querem obter lucros. Todos querem aparecer no maior número de meios midiáticos possíveis, aí incluindo as redes sociais.” Sim, em tudo que vejo e participo, é isso, mesmo!
    Embora com menos regalos e poucas companhias, sigamos!
    Abraço,
    Garoeiro

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