Vilancetes

Um estilo diferente de poema, o Vilancete, que é uma composição curta. Com ele vamos voltar um pouco no tempo, com simplicidade, elegância e rimas!

O que vamos criar? Vilancetes
O que é Vilancete?
Antiga composição poética de caráter campesino, constituída por um terceto (dito mote) glosado em duas ou mais sétimas ( sete versos, ditas voltas)),cujo verso final repete integral ou parcialmente um dos versos do terceto.

Tema: Livre (a preferência do vilancete é para temas como campo, camponeses, natureza, amores não correspondidos, sofrimentos e etc…, mas vamos deixar o tema livre).

Abaixo um exemplo de José Albano (1882-1923)

Mote:

Com lembranças de meu bem
Sozinho estive a chorar
Entre o sol-posto e o luar. (verso que será repetido depois)

Voltas:

Na hora mais triste que eu sei (A)
Das horas que vêm e vão, (B)
Saudosamente espalhei (A)
Suspiros do coração; (B)
Pois que me nascia, então, (B)
Uma mágoa singular (C)
Entre o sol-posto e o luar. (C) (repetindo o terceiro verso do mote)

E eu dizia: “O sol morreu,
“Não me vê gemendo assim,
“A lua oculta no céu
“Não sente pena de mim.
“O dia teve o seu fim
“E a noite está por chegar
“Entre o sol-posto e o luar. (repetindo o terceiro verso do mote)

“Já chorei muito a sofrer
“Saudades longe de ti,
“Porém nunca em desprazer
“Senti o que sinto aqui!”
E destarte conheci
Quando é mais triste — chorar
Entre o sol-posto e o luar. (repetindo o terceiro verso do mote)

Publicado no livro Redondilhas: rimas (1912).
In: ALBANO, José. Rimas: poesia reunida e prefaciada por Manuel Bandeira. Pref. Bernardo de Mendonça. 3.ed. acrescida de perfis biográficos, estudos críticos e bibliografia. Rio de Janeiro: Graphia, 1993. p.90. (Série Revisões, 3)

 

PAULA ALVES

 

“Chora a menina sem pão
Com mágoa em seu acordar
Embala-a a mãe com seu cantar

Seu pai saíra cedo
Seus irmãos com ele também
Sua mãe em jeito ledo
Que só uma mãe tem
assim no colo a entretém
e bem junto ao coração
Chora a menina sem pão

Acalma assim a dor
em polegar que alimenta
nasce o seu alor
ofuscando a tormenta
assim em infância lenta
deixa a menina de chorar
Com mágoa em seu acordar

Segue a vida para a monda
enquanto a fome aumenta
chega o chefe, chega a ronda
enquanto a vontade se tenta
enquanto o corpo aguenta
recomeça a menina a chorar
Embala-a a mãe com seu cantar
Paula Alves ”

 

JACQUELINE AISENMAN

 

O mundo dá voltas longas
mas não para de girar…
Nada na vida fica sem mudanças…

Não pense a gente que viver
é agir sem receio das consequências
que tudo aquilo que se vier a fazer
voltará um dia com insistência…
O que vai, um dia volta com a urgência
do que chamamos certas vezes de vingança…
Nada na vida fica sem mudanças…

Palavras ditas no calor da ira
Gestos e atos impensados na agonia
Tudo retorna enquanto o mundo gira
e vem bater em nossa porta um dia…
A vida é perfeita em sua melodia!
Ouve o cantar do vento das andanças…
Nada na vida fica sem mudanças…

Mesmo o silêncio traz com ele as respostas
para perguntas pela gente esquecidas
Que mesmo caminhando em direções opostas
o que se faz aqui se paga nesta vida
e para isto não há perdão ou guarida…
Estamos todos juntos nesta dança…
Nada na vida fica sem mudanças…

 

 

Amores são doces, paixões são amargas
Emoções no coração sempre são fortes
Quando partem deixam marcas duradouras…

 

Tão belo o amor de nossa juventude
Aqueles que povoam os sonhos de toda meninice
Que não nos pedem grandes atitudes
e alimentam como as boas gulodices…
entre a perfeição maior e as tolices…
Amores que a vida solta e não embarga…
Amores são doces, paixões são amargas…

Depois já mais adultos temos as paixões
Que nos devoram sem perdão e sem piedade
Chegam tomando tudo em nós e sem razões
Mentem e fingem ser felicidade…
Parecem prometidas à eternidade!
No entanto sem esperar vem o corte!
Emoções no coração são sempre fortes!

Passados os primeiros e inesquecíveis amores
Passados os assaltos das paixões mais loucas
Chega a maturidade com os seus valores
Mostrando que os gritos já fizeram roucas
as vozes entoadas pelas emoções, não poucas…
Que todas elas sendo parte de nossa lavoura…
Quando partem deixam marcas duradouras…

 

MARIA DELBONI

 

O trabalho já começa
e me atrevo sem medo
nestes versos a rimar

Não sou poeta senhor
para escrever lindos versos
que suspirem de amor
tão pouco herdei de berços
habilidade e ardor
para sem medo entrar
nestes versos a rimar

Que eles mostrem a alma
falem de amor e paixão
dos sentimentos sem calma
das dores do coração
de um poeta apaixonado
para as palavras usar
e nestes versos rimar.

 

 

EDUARDO BENETTI

 

Enquanto Nix e Tânatos
Procurando sanar a agonia
Confinado na Letargia

Enquanto me procurava
Louco entre torvelinho
A inquietação que amava
Os estrondos no caminho
O chicotear das ondas de ar
Mais um passo sem respirar
Então vácuo, grande afonia
Confinado na letargia

O pizzicato que inundava
Sinfônicas perderam o som
O ritmo aos poucos parava
Escorrega-se no tom
O canto começa a arfar
A música começa a desabar
São partes de novas vazias
Confinado na letargia

Eu, música assim suspirava
Arfava de eufonia urgente
Minha mente alucinava
Apenas o silencio presente
O corpo rijo vem a desabar
A alma esvai-se pelo ar
Sons, tons, perdia a harmonia
Confiando na letargia

 

 

NEYDE BOHON

 

Do poeta,
Nas entrelinhas…
Ontem, apenas por Amor

Se, poeta do amor
Em líricas linhas
Das inspirações por ardor
Ainda que não sejam minhas
Da poesia, poeta mediador
Sem rancor
Ontem, apenas por amor

Sem poetizar verdades
Do sentimento paixão
… Inverdades!
De alma e coração
Por tempos em tempo
Saudade a justapor
Ontem, apenas por amor.

 

LY SABAS

 

Renascer

Depois que tu partiste,
mergulhei meu cansaço
em outro abraço…

Quando deixei a tua estrada,
recuperei minha verdade
sufocando a dor, na madrugada.
Mesmo envergando a saudade,
despi-me da falsidade
e de todo o mal que resiste,
depois que tu partiste.

Em hora incerta,
meus anseios gritei ao vento
até me sentir liberta.
Sem nenhum constrangimento,
em busca de alento,
mergulhei meu cansaço
em outro abraço…

 

ANTONIO MARCOS BANDEIRA

 

Vilancete ao Varal
Com lembranças de meu bem
Sozinho estive a chorar
Entre o sol-posto e o luar.

Quando eu não vejo
Eu fico triste a pensar
Sem ela não sou feliz
Sem ela a me amar
Sem ela não sou ninguém
Com lembranças de meu bem
Sozinho estive a chorar
Entre o sol-posto e o luar.

Neste Vilancete ao varal
Eu sou poeta a versar
Sem ela fico tão triste
Sem ela não sei rimar
Sem ela não sou ninguém
Com lembranças de meu bem
Sozinho estive a chorar
Entre o sol-posto e o luar.

Eu aceito desafios
Em mais que irei travar
Sem meu amor ao meu lado
Eu não sei nem cozinhar
Sem ela não sou ninguém
Com lembranças de meu bem
Sozinho estive a chorar
Entre o sol-posto e o luar.

Neste Vilancete ao varal
Eu quero aqui declamar
Sem ela não tenho ânimo
Nem mesmo pra trabalhar
Sem ela não vou além
Com lembranças de meu bem
Sozinho estive a chorar
Entre o sol-posto e o luar.

 

MARILU F. QUEIRÓZ

 

A saudade aflora

A vida é interessante…
Nela tudo tem a sua hora
Mas sempre a saudade aflora!

 

Procurei na estrada da vida
tudo que me ativasse a lembrança…
Explicasse a minha ida
e buscar nos tempos de infância,
algo que motivasse a esperança.
O meu desejo é ir embora…
Mas sempre a saudade aflora!

A cada volta que dou
Pressinto um futuro incerto…
Sinto que a estrada me levou
para junto de quem está perto.
E com isso por certo
vago pela vida afora…
Mas sempre a saudade aflora!

Fico dando voltas e voltas,
mas o caminho é incerto…

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