Conto em Gotas

VARAL DO BRASIL

Oficina criativa: CONTO EM GOTAS

Proposta: Criar um conto com frases curtas, contendo cada uma de seis a dez palavras somente; onde os participantes escreverão três frases objetivas por vez, levando os personagens ao grande final.

Organização: Ly Sabas

 

 

“O mistério de Serro Azul”

 

 

Anoitece em Serro Azul.  Nas ruas vazias Igor caminha de cabeça baixa. Vira à esquerda na Gardênia, lá Breno o espera. Ao longe uma tempestade se forma. Mas Breno nem se importa. Sua expectativa de seguirem o plano é grande. A lembrança das palavras paternas o faz estremecer. A decisão fora tomada por ele, Igor e os demais. O bem de todos estava acima de qualquer coisa. Era uma missão difícil pela sua complexidade. Mal sabiam eles que a falta de pistas era real. Mas deviam tentar, não dava para desistir agora.
Breno e Igor, amigos de sempre, trocam ideias. Mais do que a curiosidade, eles querem saber a verdade. Quem teria cometido crime tão odioso? Por fim decidem voltar ao bar onde tudo começou. Caminham tomando o devido cuidado para não serem seguidos. Ao chegarem, descobrem que no local agora há um teatro.
Na frente do teatro, um cartaz antigo. No cartaz, a propaganda de uma peça. A peça, “O crime perfeito”, de Oto Menezes. Enquanto examinam o cartaz, chega um táxi. Uma mulher desce e entra rapidamente no prédio. Através da porta eles veem o perfil de um homem.
Os dois amigos, parados diante do teatro, estão estupefatos! É muita coisa para processar em suas mentes.  Afinal: o crime havia acontecido ou não?
Breno acha que aconteceu um crime sim, pois vítima existia. O pranto por sua morte também. Os burburinhos diziam inclusive: foi por amor. Indecisos, resolvem ficar à espreita numa distância segura. Por fim cansam de esperar. Ambos curiosos decidem entrar também.

Por amor… Mas, quem mata dessa forma por amor? Só se for amor pela herança, muito grande, por sinal. Destruir o local do crime, ora só… Eles tinham que fazer algo. Não podem ficar parados frente àquele enigma. Olhe, aquilo no chão é uma chave? Sem dúvida, na fresta entre a rua e a calçada… Tem alguma ligação com o crime?  Esse lugar foi tão mexido que dificulta qualquer investigação. Gravadas na chave as iniciais O.M. Agora a situação se complica. Quem perdeu voltará para procura-la? Os amigos, diante de tantos fatos, chegam a uma conclusão: Para levar o caso adiante, pedirão ajuda à justiça. E também a um investigador policial. Mas eles já descobriram tanta coisa! Talvez possam colaborar com a investigação. Não custa tentar. Igor e Breno, não acreditam em Crime Perfeito. Portanto, mesmo assustados, continuarão alertas…
Crime passional? A caminho do escritório do investigador, eles debatem. O que significa aquela chave? E as letras O.M? Deve haver uma porta para aquela chave.  As iniciais são do assassino? Não é uma chave comum. Já é muito tarde. Os amigos resolvem não ir ao escritório. Primeiro precisam saber a opinião de todos os convocados. Breno acha melhor ligar para os amigos. Marcam de se encontrar na casa de Igor. Por fim vão para lá tentar descansar um pouco.
No dia seguinte aquela mulher bate à porta de Igor. Ele, sobressaltado, abre a porta.
— Olá, sou a viúva. – ela sorri de forma enigmática. Fiquei sabendo que estão investigando a morte de meu marido. Se descobrirem algo, me avisem, por favor.
Breno e Igor se entreolham com surpresa. Se esta é a viúva…  Quem era a mulher que eles viram entrar no teatro? Novamente as palavras do pai: nem tudo é o que parece. Talvez o assassino esteja mais próximo que pensamos — cogita Breno. Agora todos são suspeitos, a viúva e a mulher estranha.
Faltam poucos minutos para que “Os outros” cheguem.  Qual deles terá dado com a língua nos dentes? Precisam tirar alguma informação da viúva.
Breno toma a frente e pergunta: — Qual seu nome, senhora?
A mulher responde: — Olga Medeiros.
Igor e Breno sentem um arrepio e se entreolham preocupados. O. M… Olga Medeiros… Então a chave lhe pertence? Tudo está mais estranho do que antes.  Será que ela assassinou o marido por amor? Mas “ela” diz ser a viúva… Será? Quem lhe contou sobre eles? Perguntas, perguntas, nenhuma resposta!
Os amigos a indagam sobre o que deseja ali.
— Contar a verdade — diz.
— A verdade? — perguntam eles. Que verdade é essa tão iminente assim? Quem seria a outra mulher que entrou no teatro? Parece que o caso está cada vez mais enrolado.
— A verdade é que…
Nesse momento chega Vicente. Ele a olha surpreso e tenta disfarçar, ela fica tensa.
Breno percebe o mal estar…
— Vocês se conhecem, papai? Eu não acredito!
Igor observa e se pergunta: “haverá alguma relação entre eles?” O pai de Breno, a mulher no teatro e a viúva? O que os une ou os separa? A verdade pode às vezes parecer muito confusa.
O real e o imaginado podem se misturar. E neste caso o que parece ser verdade não é.
— Nos conhecemos só de vista. – responde o Vicente.
Chegam os outros jovens. A mulher pede desculpas e vai embora. Vicente apressadamente despede-se também. Breno, intrigado, observa o pai. Ele segue na mesma direção da misteriosa mulher…
Que coisa, percebe-se nitidamente que estão mentindo! Breno fica intrigado e admirado com essa atitude. O que seu pai está pretendendo com isso? Igor, preocupado com o amigo, aproxima-se.
Breno diz: — Estou sem chão, meio vazio… – Os dois caminham até o portão.
— Olhe lá, meu pai foi atrás de Olga.
Sem saber que é observado, Vicente pega o celular. Os amigos voltam para o interior da casa.
Já afastado, Vicente indaga Olga: — Descobriu algo deles?
— Não tive tempo, vocês chegaram e atrapalharam.
— Está certo, encontro você depois.
A mulher estranha que estava no teatro, fala ao telefone:
— O que você conseguiu descobrir?
— Não muito, acho que o Vicente sabe sobre teu nascimento.
— Como?! Não é possível! Um segredo guardado há tanto tempo…
Enquanto isso, depois de muita discussão, Breno diz:
— Chega, isso está muito perigoso, vamos ao investigador.
Chegam ao escritório e veem surpresos que Olga lá está. Mas será que essa mulher está em todos os lugares? A situação deixa Breno preocupado. E agora, o que será que ela quer? Hum… tem algo de muito esquisito nisso tudo.  O que essa mulher está tramando? — pensou Breno. — Será que meu pai tem alguma coisa a ver?
Olga se aproxima tranquilamente dos garotos: — Olá rapazes, vocês por aqui?
Breno não se contém: — De onde você conhece meu pai?
Ela parece não se importar muito com a pergunta. A morte a todo instante paira no ar. Olga faz questão do enigma ou é forçada?… Tantas são as perguntas e nenhuma resposta.  A única coisa certa é que alguém morreu. O mistério precisa começar a ser desvendado urgente.
Olga se aproxima de Breno e sussurra:
—Sugiro que vocês relatem ao investigador o que sabem. – Dito isto, ela se afasta rapidamente.
Breno pensa: — Se entrar junto posso incriminar meu pai… Ele não dormiu em casa na noite do crime…
Por fim entram no escritório e Breno se assusta: — Pai!
Logo em seguida aparece a mulher misteriosa do teatro. Vicente pensa constrangido: “Brenda? O que ela faz aqui?”. A situação fica tensa… “Eles não podem saber que faço parte da investigação”.
— Vicente querido, você aqui?- diz Brenda.
— Olá Srta. Brenda, eu trouxe meu filho e seus amigos. — Com o olhar ele implora a Breno que não o delate.
Breno considera: — Por que meu pai está assim?
Tamborilando os dedos na mesa o investigador sorri. Toma a todos por “românticos que sonham em desvendar mistérios”.
Depois vira-se rapidamente:
— Sr. Igor, Breno estava sem óculos quando viram o cartaz…
— Sim… — responde Igor sem muita convicção.
— Muito bem, o cartaz é a chave, o que viu nele?
— A propaganda da peça “O crime perfeito”, de Oto Menezes.
O investigador coça o queixo pensativo.
— Então vocês acham que encontraram uma pista desse caso?
Sim e não. — pensa Igor — pois não existe crime perfeito!! Temos alguma suspeita, mas nada conclusivo. As iniciais O. M. podem ser também Oto Menezes.
Afoito, se precipita: — Achamos uma…
Breno toca seu braço e meneia a cabeça negativamente. “Não vamos falar da chave.” — diz seu olhar.
— Nós sabemos que quem morreu foi o marido de Olga. Se é que morreu, pois não há um corpo. O que temos são só suposições. — diz Breno.
A suposta viúva, que acompanha a conversa, se envolve:
— Afinal, vocês têm ou não alguma pista desse caso?
— Como assim: “marido de Olga”??
O investigador morde o lábio pensativo. Gostaria de falar: “não quero saber o nome da peça!”
— Pergunto o que viram, além disto, um detalhe no cartaz!
— Por que esta fixação com o cartaz? — Brenda se exalta.
— E ele, Senhora Brenda, não existe mais.
— Isto me faz lembrar o caso “Oeste Em Noz”. — completa.
Breno se distancia mentalmente de tudo aquilo. Pode ser tudo ilusão — pensa. —E se não há um crime?
Vicente faz uma declaração bombástica!
— Investigador, eis meu distintivo. Sou detetive particular, contratado pela vítima antes de desaparecer.
— Que vítima? — pergunta o investigador.
— O que sabe que ainda não sabemos? Vamos repassar as informações, até onde sei, não há vítimas.
— Você foi contratado pela vítima antes de desaparecer?
Então sabe que há uma vítima. — Breno conclui.
— Por favor, coloquemos todas as informações sobre a mesa!
Breno olha para o pai atônito. Desde quando ele é investigador? — se pergunta. — Isto não é um assassinato, é outra coisa, reflete.
— Ainda não posso declarar minhas pistas. Preciso preservar os interesses de meu contratador. Diz olhando para Breno:
— Perdoe filho, esconder isso de você!
— Ora pai, isso é o que menos importa agora. O que interessa é: “há ou não alguma vítima?”
Se não, o que é que estamos fazendo aqui?
Dúvidas se instalam entre todos os presentes. Ninguém sabe mais quem é quem afinal. E todos se perguntam para onde estas pistas os levarão. Sem que ninguém note, Brenda esgueira-se até a saída. Eles vão descobrir tudo! — pensa aflita — Tenho de impedir! — finge desmaiar.
O investigador ironiza, com um sorriso de desdém: — Típico de mulheres que tem algo a esconder!
Para aumentar a confusão chega Olga, a “outra” viúva! Ao ver a cena grita:
— Ela está fingindo!
Brenda continua lá, caída. O investigador se restringe a balançar a cabeça. A mulher atirada no chão chama a atenção de todos. Mas ninguém se move ou faz algo para ajudar. Será só o choque ou algo mais está acontecendo? Ou todos sabem que ela está fingindo? O que mais conhecem acerca daquela mulher?
“Gente demais e fatos de menos” — pensa o investigador. Irritado com toda a situação sua mente ainda lhe grita: “Oeste em Noz… Oeste em Noz…”.
— Oeste em Noz! — grita o investigador.
Igor surpreso, agora junta cacos de lembrança do cartaz: “No canto esquerdo, havia uma bússola em espiral…”. “E, sim, Oeste em Noz, este anagrama…”.
— Chamem uma ambulância. — pede o investigador e pensa: “Vamos ver até onde vai esta historinha”.
— Vicente e Olga ficam aqui, os rapazes veem comigo. — determina.
Ao saírem todos, Olga repreende Vicente:
—Você não devia ter se revelado! Agora estragou a investigação!
Com certeza não estraguei nada, você vai ver! — rebate Vicente. — O receio de ser descoberto faz o culpado se trair. Temos pressa em descobrir tudo, pois o tempo passa rápido.
— Para todos os efeitos você deveria estar em Paris! Brenda não pode ver você! Vá embora, Olga! — ordena Vicente.
Brenda foi socorrida pelos paramédicos. Mesmo entre sussurros, conseguiu ouvir um pouco do que diziam. Mas sabia que Vicente e Olga estavam juntos.
Vicente e Olga distanciaram-se dos outros. Cuidadosamente deixaram o escritório. Atravessam alguns cômodos e somente tornam a falar sentindo-se seguros.
Vicente explica para Olga que sabe a verdade sobre Brenda. Fala sobre seu nascimento e quem era o verdadeiro pai.
— Eu agora quero saber, porque ele está morto.
O tempo passa mais rápido do que eles esperam.  Os segredos vindos à tona transtornavam a todos. É mais do que alguns podem suportar.
O dia anterior, repleto de descobertas, deixara Igor confuso: — Preciso encontrar “Os Outros” para montarmos o quebra-cabeça. Já temos as pistas reveladas pelo investigador. E se for outro caso, sem ligação com os meninos? Volte à realidade, Igor, acho que nem há assassinato… O tempo está se extinguindo e não resolvemos nada. “Oeste em Noz”, caso antigo de adoção de crianças sequestradas. O anagrama que indica que há uma criança sequestrada. Já faz tanto tempo e quem será a criança? Um investigador particular, pessoas interessadas. Oto Menezes, marido de Olga, “o morto”. O cartaz com o anagrama que o liga ao sequestro. Mas e o homem que estava com Brenda no teatro? É seu amante ou seu cúmplice? E por que demoliram o bar e construíram um teatro? O homem com Brenda pode ser um detetive. As paredes do bar podem esconder o segredo procurado. Destruindo o bar, acabam com as provas…
E Breno pensa na chave que ele e Igor acharam: — A chave com as iniciais O.M. é a prova? Será de algum cofre ou caixa? Guarda documentos reveladores com certeza, mas quais?  E Olga Medeiros, é mesmo a viúva? Onde estava seu pai na noite do suposto crime?
Breno está decidido a entregar a chave para seu pai. Afinal ele está investigando o caso também. Mas será que os amigos irão concordar?
Do outro lado da cidade um homem telefona para Brenda:
— Olá querida, conseguiu despista-los?
— Por enquanto acho que sim, querido! Eles acreditam que houve um crime. Eu só quero o que tenho direito na herança. São todos uns tolos — diz Brenda
—Tome cuidado com Igor — diz o misterioso homem à Brenda — Ele sabe a verdade sobre as inicias O.M.
A ligação cai.
Sem perceber, Brenda continua falando:
— Quanto ao cofre com os documentos? Cuide para que ninguém os ache! Alô?
“Aquela mulher matou meu pai”. Brenda fica muito agitada. “Eu quero minha parte na herança”.
Vicente em casa reflete: — Fui ao teatro com Brenda.  O teatro, antes um bar-cabaré famoso, guarda segredos.  Em algum lugar deve haver registro dos sequestros.
Vicente se concentra para resgatar memórias do antigo cabaré.  Há um pedaço de música que insiste em sua cabeça. “Cabaré, baré, barão do café”. Esta música… não a ouvi no cabaré… Ouvi muito antes… Alguns moleques a cantavam na rua para insultar as dançarinas…
Certas coisas causam muita estranheza. Breno e Igor começam a se perguntar se tudo é real.
Chegam a comparar o que estão vivendo a um filme. Igor sabe que O.M. é Oto Menezes.
E que as iniciais perto do anagrama são dos adotantes. Qual a relação de Brenda com isto?
Estariam diante de uma rede internacional de tráfico de pessoas? O mistério parecia cada vez mais próximo de ser resolvido. E ao mesmo tempo tão complicado.
Em casa, Olga reflete: — Oto não podia mudar o testamento.  Brenda não é sua filha.  Tirei a filha de Vicente porque ele me rejeitou.
O plano de Olga voltara-se contra ela. Saber a verdade levara Oto à morte.  O sequestro viria à tona. Tantos pensamentos deixam Olga muito aflita. Ela tinha feito o que fez e agora nada mudaria. A não ser que Breno e Igor descobrissem a verdade.
Olga está cada vez mais preocupada com a situação.  Não permitiria que a verdade viesse à tona. Mas, o que teve de ser feito, estava feito. O passado fazia voltas na cabeça de Olga. Se pudesse, sim, mudaria as coisas! Mas agora não havia mais como mudar o passado.
—Breno — diz Igor ao telefone — precisamos conversar, agora.
Breno chega e se depara com Igor nervoso.
— Eu sei o que pode estar acontecendo — diz ele.
—Fala logo Igor! — grita Breno.
— Na escola, descobrimos que todos os alunos tinham irmãos sequestrados.
— Mas eu sou filho único — responde Breno.
— Será mesmo? — pergunta Igor.
Breno lembra que a mãe dizia ter perdido o primeiro filho. Não podia acreditar: seu irmão sequestrado? Sim, a mãe dizia ter perdido. Não dava explicações, sofria ameaças de todos os tipos. Na época ficou calada e o tempo passou…
— Meu irmão sequestrado e as iniciais que sugerem Oto Menezes.  — considera Breno — Por que ele contratou meu pai?
— E se foi Olga Medeiros? — pergunta Igor.
— Qual a ligação de Brenda com tudo isto? — questiona Breno.
— Ora, você fala de irmão, não pode ser irmã?
— Mas QUEM a sequestraria e por quê? – retruca Breno.
— Sobre o cofre que encontramos no teatro, falou com seu pai?
— Nem pensar, começamos sozinhos, vamos até o fim.
— Então vamos experimentar a tal chave.
Os dois amigos se dirigem até a garagem. Haviam camuflado o cofre nas estantes abarrotadas de tranqueiras. Era pequeno, com uma fechadura de formato estranho. Com as mãos trêmulas pela ansiedade, pegam a chave. Como esse pequeno cofre pode esconder tanto mistério?
— Abra logo, não aguento tanto suspense. — diz Igor.
Ao colocar a chave na fechadura ouvem passos. Assustados, jogam rápido uma lona sobre o objeto.
— Quem será? — sussurra Breno.
— Pai!!! O que está fazendo aqui?
— Eu que pergunto; esta chave é minha e o cofre também. O que vocês têm em mente?
— Pai,  não estou entendendo, como você sabe do cofre? E que ele estava aqui conosco… E a chave? As iniciais O.M. são de Oto Menezes ou Olga Medeiros?
Diante do desespero de Breno, Vicente resolveu ceder. Havia vinte anos que carregava aquele peso.
Deixem o cofre aí mesmo — fala com ar cansado.
—Vamos, devemos nos encontrar agora com o investigador. Há coisas que devo contar. Mesmo que perca, para sempre, o filho que me sobrou.
O investigador os esperava. Antes de Vicente começar a falar, ele os surpreende.
—Estava esperando por vocês, chamei a todos, já estão chegando.
O que podem fazer nesse momento é só esperar. Breno e Igor estão nervosos e pálidos de espanto. O que será que vão fazer; revelar todo o mistério?
— Muito bem, estão todos aqui! — diz o investigador. — Falta só a Sra. Olga.
E estica o braço na direção do telefone. Entra um policial com Olga algemada:
— Essa senhora tentou fugir, Chefe! Ela estava com isto — entrega um pacote.
— Olga Menezes, tem muito que contar — diz o investigador. — Serão revelações importantes para desenrolarmos essa trama. Tudo está no cofre que ela pegou na garagem.
— Eu sempre fui apaixonada por você, Vicente. — revela Olga. — Quando escolheu casar com outra mulher, eu me desesperei.  Casei com Oto, mas jurei que você nunca seria feliz.
— Eu soube de um grupo que sequestrava crianças para adoção.  — continua. — Sua filha foi dada como morta e adotada por mim. Oto achava que era filha dele, mas sempre foi sua. Quando ele decidiu colocá-la no testamento, eu não aguentei. Contei toda a verdade e ele teve um infarto fulminante.  A menina ainda não sabe que você é o pai.
— Essa menina é Brenda, ela é mesmo minha filha? — grita Vicente — Irmã de Breno! Como pode me esconder isso tanto tempo? Sua maldade não tem limites, você merece ser presa!!!
— A senhora vai ter que depor sobre tudo que sabe. — interrompe o investigador.
— Meu advogado tem todas as informações sobre o grupo. Quando o cerco se fechou, contei a ele — esclarece Olga.
—Sr. Vicente, vai nos contar o que há na caixa?
Vicente se curva sobre o queixo e começa a chorar: — Na caixa há o meu erro, sou pior que Olga…
—Descobri que as crianças sequestradas possuem certidões de nascimento. No cofre estão as certidões todas, mas não é tudo. Investiguei quem são as crianças e o chefão da organização.
Breno, que a tudo ouvia, estava estarrecido!
— E eu? — pergunta com um fio de voz. — Sou adotado também?
De repente todos olham para Brenda que está muda num canto.
— Por que me olham?
— Diga Brenda, quem é seu namorado misterioso? — instiga Vicente.
— Não posso dizer — responde aflita. — Ele faz parte da organização que Vicente conhece!
Brenda assustada acaba falando mais do que queria.
— Não precisam perguntar a ela, eu sei! — diz Igor. —Consegui me lembrar de tudo o que houve. O homem que vocês querem é o meu pai!
Breno olha estarrecido para o amigo. Igor relata o que recordou desde que viu o cartaz. Seu pai adotivo era o chefe da organização. Mesmo borrado o nome do pai no anagrama estava legível. Ele reconheceu Brenda no teatro, mas se calou. Tinha medo pelo seu pai.
— Você também é adotado, Breno — diz Igor quase chorando. Vicente sabe de tudo, ele é amigo do meu pai. Os dois são cúmplices, ouvi conversa deles uma vez.
— Cheguei da balada de madrugada e dormi dentro do carro. — continuou. —Acordei com eles conversando na garagem, falavam da organização. Falaram de Brenda também.
Breno não consegue acreditar naquilo, tudo era muito assombroso. Ele, Igor, Brenda e outros amigos, quantos foram adotados? Brenda sabendo de tudo, por que namorava o pai de Igor?
— Vicente dava pistas falsas para “Os Outros” investigarem. Divertia-se dizendo que era “para o bem de todos”. Ele sabia o tempo todo que Brenda não estava morta. E escondeu de todos que ela era sua filha. Queria ver aonde Brenda iria com seu plano de vingança. Por isso o namoro dela com o meu pai. Brenda descobriu que Oto não era seu pai. Ouviu quando Olga contou que ela era filha de Vicente. Sem herança, resolveu se vingar e descobrir tudo.
— Mas por que só agora você está revelando isso Igor?
— Por que há essa hora meu pai já está longe. Eu o avisei antes de vir para cá — confessou envergonhado.
—Muito bem, senhoras e senhores — interrompe o investigador. — Sr Vicente, Sra. Olga, Srta Brenda, estão detidos para averiguação. Depois dessas revelações, o que mais falta ser dito, senhores? Com relação aos adotados por outras famílias, o que será? As certidões escondidas revelam os pais verdadeiros, eles serão procurados. Os culpados serão processados e julgados; e nenhum ficará impune.
Breno sai da sala do investigador cabisbaixo, melancólico. Sua vida desmoronou como um castelo de cartas de baralho. De repente ele sente seu peito queimar…
Sangue! Seu peito está sangrando! Um tiro! É assim que tudo acaba? Ele vê ao longe Vicente com a arma ainda apontada. Por quê?
Uma voz suave o chama: — Breno querido!
Breno abre os olhos lentamente…
—Venha descansar comigo.
O pesadelo tinha voltado.  Breno não consegue esquecer o dia em que tudo começou.  Mesmo agora quando muito tempo havia passado. Ao lado do sofá sua mãe sorridente o chama. Olha para a televisão e vê uma propaganda. Na tela um ator sorridente diz: — Assistam “O crime perfeito”!
Breno olha a imagem do novo teatro congelada no comercial. Será só um sonho mesmo? Segura firme a mão da mãe enquanto sobem as escadas…

FIM

 

 

Participantes: Isabel Albuquerque, Jacqueline Aisenman, Júlia Rego, Leonia Oliveira, Ly Sabas, Marilu R. F. Queiroz, Neyde Bohon, Rosa Mendes, Rosana Freitas.

 

Coordenação e organização: Ly Sabas

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