Conto em Gotas II

VARAL DO BRASIL

Oficina criativa: CONTO EM GOTAS II

 

Oficina criativa “Conto em gotas – Se não eu quem vai fazer você feliz”

 

Proposta: Criar um conto com frases curtas, contendo cada uma de seis a dez palavras somente; onde os participantes escreverão três frases objetivas por vez, levando os personagens ao grande final.

Coordenação e organização: Ly Sabas

 

“Se não eu quem vai fazer você feliz”

(Proibida pra mim – música de Zeca Baleiro)

Estava totalmente fascinado pela morena do quarto andar. Achara ridícula a ideia do grupo para solteiros do condomínio. Só aceitou participar com a esperança de conhecer aquela Deusa. Arrumou-se com todo o esmero e tentou parecer casual. Entrou no salão e o lugar já estava lotado. Caminhou confiante, tentando avistar a mulher dos seus sonhos. Demorou um pouco para achá-la no meio daquela gente toda.  Mas quando a viu ficou extasiado com tanta beleza. Sem jeito aproximou-se dela, como pode alguém ser tão perfeito? O olhar da morena era cativante, o sorriso lindo. Planejara dizer muitas coisas, mas naquele momento a timidez o vencera. Isto era um dos motivos dele continuar solteiro.

Aquele era o primeiro encontro ‘físico’ do grupo. Durante três meses ficaram só no bate papo virtual.

O encontro seria a prova de fogo para alguns. Precisava ensaiar primeiro o que dizer. Mostrar-se interessante, cativar sua simpatia. Vestira sua melhor roupa, por isso se sentia confiante. Não se esquecera de colocar perfume. Tinha certeza de que o amor não entra na vida por acaso. Quando a conversa é virtual, fica fácil abordar qualquer assunto. Pessoalmente tudo fica mais complicado, pois vem a inibição. O jeito era improvisar, quem sabe dessa forma conseguiria conquistá-la. Criou coragem e pensou: “— Se preciso for, me arrasto, para poder alcançá-la onde estiver”. O amor tem dentro dele, melancolia e esse aspecto caricato, algumas vezes, é criativo…

Durante os meses de bate papo fingiu ser eletricista amador. Atendeu a diversos chamados e conheceu alguns dos participantes do grupo. Mas ela, sua Deusa, não precisou de seus serviços. Imaginava-a sempre como a mulher ideal. Mulher que, quando se tornasse real, seria tudo! E tudo para ele não era pouco… Mas estava confiante. O encontro seria um sucesso! E tudo sairia como havia imaginado e até melhor, pensava. Precisava disfarçar o tremor das mãos que traía seu ar confiante. Por um momento se sentiu meio ridículo, adolescente. Nunca havia se apaixonado daquela forma, era tudo tão inesperado. A possibilidade desse amor o fizera sonhar. Precisava acordar e fazer desse encontro realidade.

Nessa indecisão viu o “Ogro” se aproximar da Deusa. Ah, isso não poderia estar acontecendo! O cara era reconhecidamente um grosso.

— Olá, você é o “Cavalheiro medieval”?  — pergunta uma loira linda ao seu lado. “Nossa, sou ridículo até no apelido”. — pensou envergonhado.

— E você a “Cinderela estabanada” — disse com um meio sorriso.

Enquanto conversava com “Cinderela”, vigiava sua Deusa e o Ogro. Estava decidido, aproveitaria a mínima possibilidade de se aproximar.

— Você já conversou com o “Ogro”? – pergunta curioso à Cinderela.

Nesse meio tempo de conversa observava a sua amada. Linda morena de pele aveludada, seus olhos amendoados pareciam jabuticabas. De onde estava pode perceber a meiguice de sua voz. Seu coração disparara, não saberia dizer o que Cinderela falava. Aos poucos foram caminhando em direção ao outro casal. Ouviu o Ogro perguntar: “— Gosta de dançar?”. Rodolfo, num arroubo de coragem adiantou-se e convidou-a a dançar. Ela olhou para ele e também para o Ogro. Depois de alguns segundos, uma eternidade, aceitou o seu convite.

Suspirou, ela estava em seus braços, felizmente aprendera a dançar. Pensou em puxar conversa, mas desistiu. Tê-la nos braços e sentir seu perfume bastava. Não, não poderia ficar assim…  Afinal esta era a oportunidade que tanto desejou. Agora estava ali, era só aproveitar.

— Ainda não sei o seu nome… — começou ainda inseguro.

— Eu também não sei o seu. — Ela riu baixinho e ele respirou fundo, maravilhado.

Parou de dançar e fazendo uma mesura se apresentou.

— Rodolfo, mas se quiser pode continuar usando o apelido.

— Pensei que fosse Arthur, Senhor Cavalheiro Medieval — disse rindo.

Quando disse, “meu nome é Morgana”, Rodolfo ficou perplexo. Um lindo nome que combinava perfeitamente com sua figura altiva. Condizia com sua beleza e provocava mistério e encantamento irresistíveis. Dançaram e conversaram até o horário marcado para o final. O espelho que havia no salão refletia a imagem… Enquanto o tempo passava como se fosse um filme.

Os organizadores estavam satisfeitos com o sucesso do encontro. Alguns casais já estavam bem entrosados, agora era com eles. Morgana e Rodolfo marcaram de se encontrarem para jantar. Ele teve dificuldade para dormir, queria estar logo com ela. Quando conseguiu, foi para continuar a sonhar.

A manhã estava linda. Da janela, um raio de sol correu pelo quarto. Ah! O coração de Morgana acelerou sua alma embriagada pela ansiedade… Saía do banho quando o celular tocou insistente. Olhou o número e largou o telefone contrariada. Alex já era passado, não permitiria que voltasse. Para que insistir em algo que já virou passado? Pensando em Rodolfo, escolheu seu mais belo vestido e sorriu. Queria ficar linda para seu encontro com ele no jantar. Morgana é uma mulher segura e decidida. Agora está envolvida pela paixão, em tão pouco tempo. Rodolfo é inteligente e muito atraente. Mas será que ser inteligente e atraente é o suficiente?  Ela começou a ponderar sobre a questão. Aos seus olhos, este era um ponto a favor de Rodolfo. Mas, haveria decepção? Só havia um jeito de saber. Então como saber o melhor… O melhor era ir à luta. A felicidade estava à espera. Não poderia perder mais tempo.

Decidida, foi ao encontro de Rodolfo no estacionamento do condomínio. Lá estava ele, ansioso, impecável e sorridente. Entre gentil e cômico, abriu a porta do carro. Morgana riu toda feliz, enquanto entrava. Involuntariamente comparou a simpatia dele com a bipolaridade de Alex. Sacudiu a cabeça afastando o pensamento com firmeza. Rodolfo tinha tudo para ser “o” ser especial. Era tão delicado! E Morgana pensou: “finalmente!”. Ele pergunta se ela tem algum lugar preferido para irem. Delicada, responde negativamente, prefere que ele escolha. Entretanto, diz que gostaria de um local tranquilo. Estavam em uma cidade tranquila, sem violência. Rodolfo sugeriu caminharem no parque, onde havia um restaurante interessante. Ao entrarem, percebem imediatamente o cantor tocando violão, bossa nova. “Um cantinho, um violão… esse amor, uma canção. Pra fazer feliz a quem se ama…”. Rodolfo pensou: — “Essa canção é perfeita para o nosso encontro”.

A conversa estava animada e repleta de cumplicidade e chamegos. Morgana olha para Rodolfo com carinho e seu coração pula sobressaltado. Na mesa ao fundo estava Alex, sério a olhá-los fixamente.

Mas Alex já fazia parte do passado. A atenção total é para Rodolfo. A alegria de ambos juntos era grande, não faltava assunto. Morgana e Rodolfo sorriem o tempo todo. Dois apaixonados, acreditando na felicidade. Decidem sair dali. Rodolfo levanta-se primeiro, depois Morgana.

Saem caminhando pelo parque e sentam em um banco. E então os dois tocam as mãos pela primeira vez. O toque das mãos foi suave e lírico. Um poema para o coração da jovem. A aproximação dos dois estava feita definitivamente. O céu estrelado fazia promessas de um futuro feliz.  Morgana estava radiante por ter encontrado Rodolfo, é o amor? Só dependia deles a harmonia tão desejada, a felicidade total. Mas para haver harmonia era preciso haver verdade e transparência.

Morgana então resolve abrir seu coração e suas verdades. Não queria que o passado caísse de paraquedas entre eles. Principalmente por sentir Alex rondando sua vida. Para ele, o que viveram ainda era quase uma obsessão. Queria Rodolfo preparado para a batalha como verdadeiro Cavalheiro Medieval. Timidamente Morgana começou a falar sobre sua vida com Alex.  Abriu seu coração e mostrou-se por inteira, sincera e serena. Esperava dessa forma, expor a transparência de sua alma. O olhar de Rodolfo, de início, era de compreensão. Depois passou para o de apreensão.

Então, foi tomando um tom de tranquilidade. Morgana transmitia muita sinceridade em suas palavras. Seu tom era muito suave, embora ansioso. Seus olhos tinham uma ternura tão grande, que era impossível ignorá-los.

— Minha Deusa— diz apaixonado — juntos seremos fortes! Essa é a fala dos filmes de capa e espada?

Levanta puxando-a para seus braços e rodopiam em valsa imaginária. Esse jeito ora tímido, ora cômico, a encantava. E ao mesmo tempo deixava-a temerosa. Conseguiriam viver esse amor em paz?

Dançavam e levitavam ao sabor do vento suave. Corpos que se entendiam com intimidade arrebatadora. Mas havia um futuro à frente deles. Rodolfo e Morgana estão encantados. Com as costas das mãos Rodolfo acaricia a face de Morgana. Ela responde as carícias da mesma forma. O silêncio se instala entre os dois. Ambos ficam como adolescentes. Trocam carícias suaves, o coração palpitando de emoção. Voltam para casa ainda inebriados. A partir dessa noite mergulham confiantes na paixão.

Nada parecia capaz de abalar o relacionamento que se iniciava. A não ser a intolerância raivosa do ciúme. Essa praga que não deve ser considerada tempero afrodisíaco. Mas como erva daninha que precisa ser cortada na raiz.

Nessa envolvente paixão, o tempo foi passando de forma rápida. Depois daquele jantar, Alex a procurou e telefonou algumas vezes. Depois parou. Morgana finalmente se livrou de tão inoportuna presença? Morgana está encantada com Rodolfo. Ao mesmo tempo teme alguma vingança de Alex.

Ela finge não perceber o ciúme do ex-namorado.

Em menos de um mês Alex iniciou a guerra… Primeiro foram os posts nas redes sociais, depois as fotos. Tudo junto e misturado com as mensagens no celular. As ameaças eram frequentes e as brigas mais ainda. Mais um pouco e o status no Facebook mudaria. Ela e Rodolfo seriam solteiros novamente. Desesperada com as ameaças de Alex, Morgana desaparece. Rodolfo se dá conta de que nada sabe sobre ela. Tenta ajuda do grupo, mas eles também pouco sabem. Rodolfo estava confiante de que Morgana gostava dele. Não entende o desaparecimento dela. Mas está disposto a enfrentar qualquer situação.

Desanimado, lê no grupo uma mensagem do Ogro: “Quer ajuda?”. Imediatamente responde marcando um encontro no salão de jogos. Lembra que no encontro, o Ogro parecia interessado em Morgana. Ogro conta que já conhecia Alex, que antes eram amigos. Que na época do namoro com Morgana saíam juntos. Conta que sua irmã é amiga de uma prima dela.

— Célia sabe onde ela se escondeu, a prima contou. Levo você até lá amanhã, pode ser? – completou.

— Combinado, antes, vou saber tudo o que meu advogado descobriu.

Rodolfo ficou tentado a lutar pelo amor de Morgana. Provar que era merecedor da sua confiança e amor. Saem cedo em direção à cidadezinha onde mora a prima. Conversam bastante, descobrem afinidades, Raul é interessante. Ao entardecer, quando chegam, já são amigos e cúmplices. Rodolfo descobriu que Morgana estava só e fugira de Alex. Ela ficaria na casa da tia até tudo se tranquilizar.

Munido de coragem se dirigiu à casa da tia dela.

Morgana, ao ver Rodolfo, fica feliz e também envergonhada. Todos viram as loucuras e mentiras que Alex divulgou. Rodolfo conta que seu advogado já tem o processo pronto. Só precisavam que ela voltasse e desse a entrada. Tinham retirado tudo da internet com a ajuda do advogado. Ela era decidida, corajosa, não podia se entregar daquela forma.

— Olhe para mim, Morgana, estou aqui inteiro para você.

Ela sorri, o abraça enterrando a cabeça em seu ombro.

— Se não eu quem vai fazer você feliz! — canta Rodolfo.

 

Fim

 

Participantes: Ana Rosa Santana , Jacqueline Bulos Aisenman, Juca Cavalcante, Ly Sabas, Maria Lima Delboni Lima, Marina Marina, Marilina Baccarat De Almeida Leão, Marilu R F Queiroz, Neyde Bohon e Sonia Palma.

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